Publicado em 27 de junho de 2009 às 05:57 por beethoven

"A dúvida me rói. E se tudo não passasse de ilusão? E se nada existisse? Nesse caso, eu teria pago o meu carpete caro demais."
Woody Allen
Publicado em 13 de maio de 2009 às 01:28 por beethoven

Pois sim. Vejamos bem. Estou sozinho. Ou, como se costuma dizer, sem vivalma por perto. É ruim estar sozinho? Há muito tempo decidi que não. Eu sou – e digam o que quiserem – a minha melhor companhia. É claro que existem companhias raras, especiais. É claro que existe a alegria incomensurável de certas companhias que nenhum prazer da solidão substitui. Mas estas, como é próprio das coisas raras, não estão sempre à mão. Pois bem. Bebo uma cerveja. Como diria Baudelaire (e eu sempre lembro dele nessas horas): Enivrez vous: de vin, de poésie ou de vertu – à votre guise. (Embriaga-te: de vinho, de poesia ou de virtude – ao teu gosto). Obviamente, além do vinho, da virtude e da poesia da palavra, existe a poesia do som, que é a Música – e este é o ponto-chave do texto que ora escrevo. A Música. Eu descobri, no últimos tempos, aquilo que, na Alemanha, um certo filósofo bigodudo, no fim do século XIX, já dizia – “Ohne Musik wäre das Leben ein Irrtum” – ou, na língua que ora nos serve, “ Sem música, a vida seria um erro”. Discordem ou concordem – é a opinião do bigodudo e é a minha experiência. E o que é – pode-se perguntar – a Música? Como conhecer algo como a Música? É possível conhecer a Música? É possível, no fim das contas, conhecer alguma coisa? E aí intervem de novo o bigodudo (que não chamo pelo nome porque ele já cansou de ser citado). Diz ele que não, não conhecemos nada, apenas descrevemos as coisas. Me diga você, que ainda está lendo este texto esquisito: você conhece alguma coisa? Ou apenas descreve as coisas com palavras mais ou menos adequadas? Seja sincero. Você não conhece nada, reconheça. Você apenas circunscreve as coisas usando um código chamado linguagem. Mas quem é que garante que tal código corresponda diretamente às coisas assim codificadas? Ninguém garante. Digamos, por exemplo: a cerveja. O que é a cerveja? Uma bebida feita de extratos vegetais, com certa graduação alcoólica, vendida em larga escala no Ocidente. Isso diz alguma coisa? Estamos descrevendo a cerveja. Como conhecê-la? Bebendo, dirão alguns. Pois bem: gelada, amarelada, gaseificada, mais ou menos amarga, mais ou menos espumosa, mais ou menos frutada. É uma descrição, ainda que mais íntima. Mas ainda é uma descrição. Mas voltemos à Música. Por que eu insisto nesse ponto? Porque eu estou seguro de que a Música (e sim, sou horrivelmente chato e só chamo de Música uma pequena parte dos fenômenos sonoros que nos cercam) é o instrumento privilegiado para conhecer. Não sou eu quem diz, é Schopenhauer – quaisquer três acordes de Brahms superam qualquer artimanha da Razão. A Música é a ligação direta com o incognoscível porque independe da palavra. Seja então: posso ler um grande tratado de Oceanografia, mas saberei mais sobre o mar ouvindo “La mer”, de Debussy. Sim? Alguns discordarão. De qualquer forma, ouvir “La mer” é uma das experiências mais estonteantes da minha vida inteira. Digamos também que saberei muito mais sobre a força e a coragem ouvindo a “Eroica” de Beethoven do que lendo quialquer outra coisa que fale, em palavras humanas, sobre força e coragem. Ou saberei mais sobre a alegria ouvindo Mozart. Ou – para chegarmos ao ponto extremo, ultra-humano: saberei mais sobre Deus ouvindo as Suítes Inglesas de Bach (ou qualquer outra coisa de Bach) do que revirando qualquer compêndio de Teologia. Sim, diz alguém que a música de Bach, não sei onde li, é tão parecida com Deus. A Música, portanto, um instrumento metafísico? A única forma de conhecimento livre das amarras condicionadas da linguagem verbal? Sim, eu digo. Não, alguns dirão. E assim ficamos nós.
Publicado em 10 de maio de 2009 às 05:08 por beethoven

Coisas sem nome, coisas sem forma. Os lados de uma redonda fruta, os lábios de um cavalo, os livros na escrivaninha dispostos. Sentar-se aqui, em plena sexta-feira, sem saber como começar voltar a escrever. A plena sexta-feira é um ótimo dia para sentar-se, a cabeça cheia de palavras, e atiçar a compostura do mundo.
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Cavalgadura das coisas sem nome, ressurgimento das coisas para as quais não há palavras: as hortas orvalhadas, as anáguas, as mãos postas sobre o peito em atitude de prece. Pois é justamente isso que a sexta-feira pede, agora estou descobrindo – uma prece. Ajuda-me, pai, a achar a palavra certa para falar do que é fugidio demais. Ajuda-me a encontrar uma palavra que seja tão fugidia como são as coisas, tão lisa como é liso o mundo. Ajuda-me, pai, a escrever algo que seja não como eu sou, mas como é o mundo – aos trancos, abismável, frutífero.
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Eu amparo a sexta-feira e abro a janela para que o cheiro que a noite tem penetre em mim e me mova a escrever algo que descreva – não a minha paisagem – mas a paisagem da noite, os carrilhões, os túneis, as guelras, o mercúrio. Não é fácil essa experiência. A sexta-feira não ajuda, pois é hermética. Ela é só uma promessa e proíbe intrusões em seu núcleo. Fundos são os galões e as cápsulas; quadrangulares são as câmaras que a noite abre; buliçosas são as façanhas na noite perpetradas; macios são os teus pés ocultos sob a treva, mas insalubres os porões da noite, agudos os guinchos.
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Preciso encontrar um ritmo adequado. Pois é provável que, à meia-noite, vestido, alimentado e pronto, eu olhe para trás, já no sábado, e encare a sexta-feira morta sem saber realmente do que ela foi feita. A sexta-feira, então, finada, permanecerá um mistério – como, no fim das contas, todo o resto das coisas permanece.
Publicado em 08 de maio de 2009 às 20:30 por beethoven

Publicado em 20 de novembro de 2008 às 15:41 por beethoven

Há, para além da Grécia, um porto. Não sei contar as ilhas ou as vezes que estive perdido. Mas há um porto, há uma tarde no arquipélago. Para além da Grécia, olhos que são água. Um herói, um tirano, um corifeu. Há um corpo sobre o qual descansar, uma Música, um gesto. Não sei da dança ou das vestes do coro, não sei das máscaras ou do frêmito. Mas sei do mar, que a Música em ti revolveu – e da espuma. Um grão que é teu – a areia, teus pés, teus cílios semoventes. Há um mover-se dentro da terra, para além da Grécia, as mãos espalmadas sobre o chão. Eu vi quando teus olhos dardejavam, eu percebi, respondi, a Música era a vida ou a seiva que me manteve vivo. Mãos, companheiro, e força, para seguir avante. Estás aqui?
Publicado em 16 de novembro de 2008 às 07:11 por beethoven