a maçã em processo
Monday, 29.09.08
Deutsch Stunde mit Rilke.

Ernste Stunde
Wer jetz weint irgendwo in der Welt,
ohne Grund weint in der Welt,
weint über mich.
Wer jetz lacht irgendwo in der Nacht,
ohne Grund lacht in der Nacht,
lacht mich aus.
Wer jetz geht irgendwo in der Welt,
ohne Grund geht in der Welt,
geht zu mir.
Wer jetz stirbt irgendwo in der Welt,
ohne Grund stirbt in der Welt:
sieht mich an.
Hora Séria.
Quem agora chora em algum lugar do mundo,
sem razão chora no mundo,
chora por mim.
Quem agora ri em algum lugar na noite,
sem razão ri na noite,
ri de mim.
Quem agora anda em algum lugar do mundo,
sem razão anda no mundo,
vem para mim.
Quem agora morre em algum lugar do mundo,
sem razão morre no mundo:
olha para mim.
In: RILKE, Rainer Maria. Senhor, é tempo: poemas selecionados. Tradução e organização Karlos Rischibieter. Curitiba: POSIGRAF, 1993.
Wortschatz. (Léxico.)
ernst
Adj 1 sério. 2 grave (situação).
Ernst
Sm (o. Pl) 1 seriedade. 2 gravidade.
irgendwo
Adv em qualquer lugar ou parte.
Grund
Sm, Gründe 1 motivo, razão, causa. 2 solo, chão, terreno. 3 base, fundamento. 4 fundo.
weinen
Vint chorar.
auslachen
Vtr zombar, rir de.
gehen
Vint unreg (sein) 1 ir, andar. 2 ir embora, afastar-se, retirar-se. 3 funcionar. 4 ser possível ou viável. 5 dirigir-se a.
sterben
Vint unreg (sein) morrer, falecer.
ansehen
Vtr unreg 1 olhar, ver, observar, examinar, analisar. 2 perceber. ansehen als (ou für) considerar, tomar por, confundir com.
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Monday, 22.09.08
Trois Couleurs: Bleu.

Ganhei de um amigo querido o CD da trilha de Zbigniew Preisner para o filme de Kieslowski. Um presente que me trouxe a maior alegria. Na minha modesta opinião, trata-se da mais bela música já feita para um filme. Música envolvente, poderosa e, sobretudo, humana. Para quem viu o filme, a trilha de Preisner evoca o sofrimento irremediável da personagem Julie, interpretação escandalosamente magistral de Binoche. Talvez uma música dessas seja aquela capaz (arrisquemos) de operar a difícil conexão que é a chave do trágico: entre a inexorabilidade da dor (a dor da perda) e a supremacia de uma alegria (a alegria da Música) que insiste em fazer valer seu emblema, há um estreito espaço. Nesse espaço, construído pelos grandes planos corais e reforçado pela pungência da mesma melodia insistentemente repetida pela orquestra, ergue-se a silhueta humana do herói (da heroína) contra o fundo inapelável que a morte instaura e que a heroína, em sua escalada, deve atravessar. Será esse, talvez, o sentido de uma liberdade que, a despeito da dor, se ergue sobre a ruína. Mas isso é só tentativa vã de avançar sobre aquele limiar do indizível (o limiar da música) além do qual qualquer palavra é convertida num canhestro gaguejar. Então, ouça-se. Faça-se, do silêncio mortal, a música.
Para ouvir de olhos úmidos e de coração atravessado.
1. Song for the Unification of Europe (Patrice's version) 5:17
2. Van Den Budenmayer - Funeral music (winds) 2:05
3. Julie - Glimpses of Burial 0:32
4. Reprise - First appearance 0:34
5. The Battle of Carnival and Lent 0:59
6. Reprise - Julie with Olivier 0:51
7. Ellipsis 1 0:23
8. First flute 0:52
9. Julie - in her new apartment
10. Reprise - Julie on the stairs
11. Second flute 1:18
12. Ellipsis 2 0:23
13. Van Den Budenmayer - Funeral music (organ) 1:59
14. Van Den Budenmayer - Funeral music (full orchestra) 1:49
15. The Battle of Carnival and Lent II 0:44
16. Reprise - flute (closing credits version) 2:21
17. Ellipsis 3 0:25
19. Olivier and Julie - Trial composition 2:01
20. Olivier's theme - finale 1:40
21. Bolero - Trailer for "Red" film 1:11
22. Song for the Unification of Europe (Julie's version) 6:50
23. Closing credits 2:06
24. Reprise - organ 1:15
25. Bolero - "Red" film
Faixas em mp3 compactadas em arquivo.rar
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enviado por beethoven às 20:37 | 1 comentário
Sunday, 14.09.08
O Vento Livre.
Estou livre. Como o vento é livre e voa entre as campinas matizadas de hera. Estou livre de ti, para sempre, do teu corpo, do teu estar-aí. Vivo livre agora, e conheço um pouco da palavra chamada: felicidade. Porque me libertei de ti, tua carne branca na cova dos leões, voei para outro canto, estou com asas, sou alado e tu és apenas uma sombra. Eu estou no Sol, caminho em direção ao Sol, nas planícies onde viceja a erva, nos rios onde pulula a vida dos peixes. Eu sou a vida. Não estou mais em ti: estou em mim. Vivo em trânsito – danço, corro, apareço – sou aquele que sai, aquele que entra, aquele que ama, aquele que arrasta consigo uma carga da fibrilação da vida. Já não sei concatenar palavras. Estar feliz é mais do que eu conheço. A alegria é um hino que eu entôo, que soa em toda catedral, que ressoa em toda lápide. Sou eu, agora, absolutamente nu. Nos campos, nos iglus, nas britadeiras, nos vales, nas cidades, à beira dos rios, sou eu, aprendi a alegria, aprendi o trágico, renasci da Idade Escura do teu corpo, emergi da Treva. Tratei de iluminar-me. Cuidei de mim. Estou aqui, vivo, com asas, pronto para todo e qualquer arquipélago.
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Thursday, 11.09.08
Um Fogo Vivo.
Estácio era um homem amigável. Seus pés eram duros como rocha calcária. Ele habitava uma casa de vampiros, lugar de candelabros e de odor de alcaçuz. Na Idade Média, vi Estácio irromper na cripta, os olhos em chamas vivaldinas, dizendo: “- As vidas alemãs são diferentes!”. Nunca pude decifrar o significado desse dito.
Uma vez que Péricles, irmão de Estácio, entra na história, a coisa muda de figura. Péricles é alvo, os pés calçando um par de sandálias mui arcaicas, os olhos doces, pacientes. Nada que lembre o irmão Vespácio. Na primavera, Péricles brinca nas esteiras da tarde (as membranas tão lisas da tarde) como se fosse um pequeno Pã, um pequeno sátiro educado na floresta.
Era o caso, pois Vespasiano, um outro irmão bastardo, fabricava doces. Diz-se: um confeiteiro. E a especialidade de Vespasiano eram os suspiros. Suspiros doces de tão brancos, areados, levíssimos. Na jaula em que Vespasiano reside os suspiros crescem e formam estruturas aneladas. Excesso de fermento, dizem, loucura do confeiteiro, morto por asfixia em suspiros.
E já que estamos em Péricles, não custa narrar o dia em que ele apareceu na horta de gerânios, nu do pescoço pra baixo, cantarolando a antiga canção eslava que sua mãe lhe ensinara. Cru, como um nabo recém-retirado da terra é cru, ele passeava entre as hortaliças enquanto eu, com ouvidos fixos, sorvia o vir-e-ir da canção.
Vespácio era um pônei, revelemos enfim. Cordilheira abaixo, corria com seus cascos de queratina, as crinas em flor, voejantes. O equador é uma linha tão fina. E no Estreito de Bósforo as rochas são de um verde-azulado que até me dói a vista. Errante, Vespácio vaga pelas estradas de sal, entra nos templos, faz oferendas aos deuses.
Para finalmente chegarmos a Tâmara, a irmã de todos. Eu amo Tâmara e a voz de Tâmara. Ela é jardineira. Seu forte são as begônias. Tâmara despreza leguminosas, pois sabe que nada é tão obsceno quanto uma abóbora cortada em fatias. Dentro do peito de Tâmara, vejo fractais. Há uma música tão próxima. Na vagina delicada de Tâmara, um espasmo vai e volta, vai e volta, como um sopro.
Ao lado de Tâmara, existe Daniel. Não posso falar de Daniel, pois não é permitido. Sei que ele é uma sombra, um nome, uma pergunta. E uma dor tão funda. Para ele, escrevi uma poesia. Daniel tem pernas, braços e cabeça – é o que normalmente se chama um “ser humano”. Os seres humanos como Daniel andam por aí, estão sempre por aí. Mas ninguém pode tocá-los, pois são feitos de uma matéria ardente que fulmina qualquer um que deles se aproxime. Ele é um fogo.
Cheguei ao fim da narrativa. Estou exausto. Paro por aqui, pois as palavras me fogem. Abençoada seja Tâmara, a hortifrutigranjeira. Abençoado seja Daniel, seus pés, seu sexo. Abençoado seja Péricles, com seus dotes de marujo. Abençoado seja também Vespasiano, o homem que virou suco. E abençoados sejam os tomates, pois sem eles jamais conseguiríamos fazer molho bolonhesa.
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Thursday, 04.09.08
Uma Falange de Espinhos.

Há espinhos dentro do meu peito.
São longos e pontiagudos artefatos.
Estão dispostos por toda a extensão do meu peito,
Mas são muitos no canal estreito
Que divide um flanco e outro.
Digo: no centro do peito, entre um mamilo e outro
Há uma concentração de espinhos finos.
São perspicazes, travessos, insolentes –
São feitos de aço e tintilam quando perturbados.
E não são imóveis: mas se aprofundam e corrompem
A matéria frágil do meu peito
A cada vez que eu me lembro de ti e do teu hálito.
Eles laceram a matéria carnosa do meu peito
(meu coração valvulado, meus átrios)
A cada vez que eu reavivo em mim
A lembrança do teu corpo pequeno e compacto,
A pressão do teus lábios sobre os meus,
O passeio lento da tua língua sobre a minha língua.
No interior do centro do meu peito há espinhos.
Uma legião, digo, de espinhos ajuntados.
Formam, sobre a carne do meu peito, uma coroa.
É uma dor redonda e substanciosa e constante
A dor causada por essa falange de espinhos.
É uma dor que eu aceito e que me pertence:
Já que essa dor sou eu, inteiro e vivo e macerado.
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Saturday, 30.08.08
Um Dia de Caranguejos.

Era Tibúrcio um caranguejo de seis patas que vivia no Mar-Oceano. Não digo que Tibúrcio não gostasse também de dar seus passeios pela terra.
No Mar-Oceano, viva Tibúrcio, um caranguejo de seis patas que gostava de dar seus passeios pela terra. Não digo que Tibúrcio fosse um animal terrestre. Ele, digamos, transitava entre a areia e a água. Desenvolto era Tibúrcio; e um caranguejo mui esperto.
Pois que um dia Tibúrcio viu-se emaranhado nas redes de Osmani, o pescador, que do Mar-Oceano tirava o sustento dos seus. Não digo que Osmani tivesse família grande, pois tinha apenas Laura, sua mulher ou fêmea-concubina.
A rede pesqueira prendia cada uma das seis patas de Tibúrcio e cada uma das seis patas estava imobilizada, o que não era um problema, já que Osmani e Tibúrcio eram amigos de data longa e longínqua.
Assim que viu o crustáceo preso em sua rede, exclama Osmani: “- Ora viva, amigo Tibúrcio! Que bom vê-lo em minha rede pesqueira!”. Os verdes olhos do pescador eram toda uma viagem marítima, e faiscavam sob a tarde como faíscam gemas de turmalina.
Tibúrcio, tão contente, levantando dois dos sete olhos que possuía, responde: “- Ora viva, man´Osmani! Eis que cá estou, preso em tua geringonça. Livra-me as patas pois, para que eu possa estar mais à vontade contigo!” Dito isso, soltou o pescador, uma por uma, cada uma das patas do caranguejo da rede onde se encontravam afixadas. Soltou com cuidado, com carinho até, esforçando-se para que Tibúrcio percebesse o valor de sua amizade. Bons colegas eram esses dois.
Logo em seguida, caminham ambos, pescador e caranguejo, pela orla. O caranguejo vai de lado, como é o costume da espécie; o pescador vai de frente, seminu, exposto o peito ao sol, em trote delicado. Conversam. “- Viste, Osmani, a nova jangada que pelo Mar-Oceano navega? É bela, de alva vela e veloz. Passou por mim ontem, durante o jantar.” Responde o rapaz: “- Pois sim, Tibú, eu vi e cobicei proa e popa. Quisera eu ter uma jangada tão galante.” “Já é o amigo galante o suficiente sem jangada.”, garante Tibúrcio, a modo de consolo.
Assim palravam os amigos enquanto o sol da tarde lançava sobre a superfície do Mar-Oceano uns laivos verdes e avermelhados. Dirigiram-se logo à casa de Osmani, onde os esperava Laura, com quitutes. Laura, esposamante, preparava um cozido de peixe que tinha a fama de ser o melhor da orla. Era grande o número de curiosos que acorriam à casa do casal para provar da iguaria.
Enquanto espera o jantar, Osmani lança seus olhos agudos para o ventre segmentado do amigo de seis patas. Era um momento canônico. Tibúrcio, percebendo-se observado, relaxa e contrai o ventre, bombeando sangue para o cefalotórax. Um dedo de Osmani repete um movimento lento e circular sobre a polpa dos tendões do amigo. O cheiro do cozido de peixe invade o pequeno cômodo.
No Mar-Oceano, as ondas proferiam um anúncio. A carapaça de Tibúrcio recebe um afluxo de gotas de um líquido branco e cheiroso. Perfume do interior de Osmani, que rebebe os ares do mar, já faminto pelo guisado de peixe. Levanta-se do leito o pescador e traz consigo o caranguejo, encarapitado no ombro. Vão à cozinha. Vão jantar.
O guisado, o refogado é uma pasta grossa, substanciosa. Povoam-na pedaços soluçantes de peixe entretecidos na pele carnosa dos tomates inteiros. Corações de alcachofra, suculentos, em seguida vêm, com pimentões que vêm, com rodelas de cebola que vêm girando e uma névoa de noz-moscada que ofusca e inebria os convivas. Nas bordas da grande travessa, tiras cozidas de banana-da-terra povoadas com lascas de canela em rama.
Tímida Laura, criatura de Deus, serve o refogado fumegante, o angu e a farofa. Refresco de camu-camu bebem os convivas, e tagarelam. Laura fomenta: “Sei que és noctívago, amigo Tibúrcio! Pois o que fazes tu durante as madrugadas do Mar-Oceano, enquanto todos dormem?” “Veja bem, Laura bela, nem todos dormem no Mar-Oceano quando é madrugada. Há os acesos e os desesperados, os que passeiam e há os espreitadores. Eu, com Sônia, a moréia, me reúno. Somos o clube de leitura. Na semana que passou, estivemos entretidos com escritos de Schopenhauer.” A querida Laura, de tetas fartas, como ignorava o que quer que fosse sobre o poeta de Frankfurt am Mein, não fez mais comentário algum.
Nesse entretempo, as horas avançam, vem a sobremesa e depois o café. Fumavam na varanda, Osmani, Tibúrcio e Laura, apreciavam a noite. Era aquele firmamento de estrelas salpicado, um vento morno que provinha da praia, uma cantiga antiga que alguém entoava na distância. Como não houvesse mais nada a ser dito, ficaram em silêncio.

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Monday, 25.08.08
O Porto Suspenso.

I
Porto suspenso em andaimes
Junto ao mar de ondas encrespadas
Concha aberta, bivalva,
Que revela, dentro, a carne branca,
A matriz da pérola.
Porto com cais de varas fincadas
Areia feita de minério e limalha
Espuma que é o líquido-sêmen
Formador das coisas.
As coisas formadas e palpáveis
Navegam, carne a carne, no mar
E os sargaços bóiam entre chifres
E compridas tubas de metal lanhado.
A cadência das coisas circundantes
É o ritmo de um pulso existente
Como um coração que nesse mar
Lançasse as naus, singrasse ao encontro
Das linhas suspensas sobre o sal
E na arrebentação, abrisse suas coronárias,
Seus vestíbulos.
II
Que as coisas existentes são átomos e nada
E nós mesmos, falantes ou moventes,
Somos nada e átomos – mas singramos, audazes,
Cabeceando no mar dos hemisférios curvos
Abertos os olhos com força e ávidos,
Seguimos com gracejos, festivais, disputas
Como se nada aí nos detivesse ou ofuscasse.
Como se nada nesse mar nos mantivesse
Sob o domínio estrito da terra e das exigências
Da terra, que são muitas e inexoráveis.
Singramos cegos? Cegos ao que nos corrompe
E mudos como as algas dóceis que cobrem
As distâncias, sugadas no vão das correntes.
Somos os dóceis, os que vão e jamais tornam a vir,
Os que engolidos pelas fossas e desmembrados
Pelos cardumes e macerados pela dentição
Dos polvos, das moréias e das anêmonas.
III
Alarde do aracnídeo do peito
Romance das uvas na colheita
Esgarçados os arcos nas colméias
Salpicados os túneis de sangue saboroso e grosso
Partidas as linhas da palma
As mãos plantadas sobre o barro
A alma de espasmos assombrada
E o sangue, saboroso e grosso, desce
E alimenta o ventre e o baixo-ventre
Onde nos consome a fornalha.
E os rios de água barrenta correm
E os brejos, os veios, os canais
Correm mais em direção ao rio
Tão grosso, tão fundo
As rochas postadas ao lado
O sol que é uma rocha suspensa
Sobre os arquipélagos
Sobre os mananciais
Sobre os mangues
E os fios da vida, que são frágeis,
Como nervos finos e azulados
Estão emaranhados no corpo
E o corpo responde ao tempo
E ao tempo sucumbe sem apelo.
Mas nada disso nos concerne ou toca
Pois seguimos como viandantes ao quais
É desconhecido o rumo e o destino da jornada.
Seguimos fagueiros, exibindo penachos,
Empunhando os membros em riste, eréteis,
Como caçadores, orgulhosos da caça valiosa
Ou expedicionários em marcha vigorosa
Em direção ao nada.
(Ofereço aos vermes
Esse corpo retrátil, ofereço aos vermes meus pés
E aos vermes meu sexo desmantelado,
Aos vermes meu peito e a cavidade que o meu
Peito esconde e protege)
IV
A cadência das coisas existentes no tempo
(o corpo, os cães, as árvores, as pedras)
O contínuo aparecer e desaparecer das coisas
Organiza um ritmo secreto, um pulso –
Somos andamento e aparência e espanto
E saltamos, vendados os olhos, as mãos em cruz,
Para o abismo que nos aspira
A máquina do mundo que nos reprocessa.
(Se a carne sucumbe, logo aparece mais carne
E depois disso mais carne que sucumbe e cai,
De um lado a outro, a carne cai e sucumbe, mas nada
Entrava a produção de carne nova que se sobrepõe
E substitui a carne arcaica)
V
Um porto suspenso no mar da lonjura inabitável:
Somos areia e cal e pedrarias, somos alento;
Um porto suspenso na bruma, que mal divisamos
A estatuária de imprecisas formas
E mal sentimos investir na face
O vento salgado que ricocheteia nos muros
E sibila nas frestas do madeirame.
Um porto suspenso é o que somos
Ou somos a neblina que arredonda as coisas
(Somos átomos e nada)
Ou somos lonjura e não sabemos
Ou a noite que recobre tudo
E a tudo acolhe no seu véu.
Um porto suspenso é o que somos
Ou somos a indefinida espera
(e oscilamos entre ser e nada)
E aqui habitamos, no saguão do corpo,
Desconhecidos de nós mesmos
E dos que aqui conosco esperam.
Os corpos brancos, espaçados,
Cada qual em seu invólucro
E sanguinolenta cápsula – aqui pairamos,
Como esfinges inscientes do enigma
Ou como máscaras às quais falta o rosto,
Aqui lidamos com a vida em feixes
E a cada feixe decomposto suspiramos
E a cada suspiro empalidecemos.
Escuta-se ainda a voz de Heráclito
Á beira de todo largo rio, cavernosa,
A relembrar o eterno fluxo do qual
Compartilhamos uma ínfima parte.
E o fogo aceso que em nós arde
É o fogo vivo que ardia antes
E o fogo que arderá depois somos nós –
Vida imaculada pelo tempo,
Luz que nos habita na voragem,
Campo de matizes ou terreno
Ou amurada tomada pela hera:
Somos nós na chuva e nas rajadas
Somos nós nas matas ciliares da margem
Somos nós nas dunas, nas falésias
Somos nós no gelo, nos gêiseres de água fervente,
Nas ilhas do Pacífico espaçadas
Pela amplidão das milhas de viagem.
VI
Abarca, amor, com teus braços, o meu corpo que perece.
Abarca com teus braços brancos o meu corpo
Que a vida finda, amor, e já antevejo o instante
Em que os teus braços serão lava efervescente
E os teus olhos serão nuvens que passeiam
E os teus pés imaculados serão erva
E os meus pés serão a terra onde a erva cresce.
Aperta, amor, contra o meu o teu corpo:
Que o cancro da morte jaz em nós, enraizado.
Aperta com fervor contra meu ventre a tua face,
Reconhece em mim o que há de vivo e de pulsante
Porque num instante, amor, se desprenderão as
Tuas mãos das minhas e o teu calor e o meu calor somados
Serão calor da tarde e o sangue que nos preenche
Há de preencher outras artérias, amor, que não as tuas,
Que não as minhas.
E o brilho que vivifica os teus olhos apagará.
E o cheiro do suor do teu sexo misturar-se-á aos outros cheiros.
E os teus quadris serão desmontados e repousarão.
E a tua febre arrefecerá no início da manhã.
E o formato angular do teu rosto será desfigurado.
E ao fim da tarde repousarão as tuas pernas.
E ao anoitecer a água dos teus olhos vazará.
E na madrugada as folhas do teu coração sucumbirão.
VII
O mundo e as parreiras que habitam o mundo
E as dobras do mundo, untadas com óleo das flores
E as ruas das cidades do mundo cravejadas de pedra
E as torrentes de água e as vertentes
E as turbas violentas do mundo e a confusão toda
Da vida que respira e arde.
E os portos do mundo e as estradas tranversas do mundo
E as planícies e os vales aprazíveis onde voejam
As vespas do mundo e máquina do mundo que não cessa.
Sou teu afluente, teu discípulo,
Almirante em ti contido,
Rumor das tuas fossas,
Interior dos teus flancos,
Ignorante de ti, mas teu servo:
Sou teu sumo, tua sutileza
Sou a alma dos teus cânticos
A água dos teus cântaros
A falange em teus combates
Sou teu centurião, armado,
Permaneço em ti se estou vivo
E amanheço em ti e anoiteço.
Sou um gânglio teu e habito a tua carne
E não te livras de mim senão extirpando
Aquela parte tua mais interna e secreta.
Imagem: obra de Silvia Migliari (fragmento).
enviado por beethoven às 19:00 | 1 comentário
Tuesday, 05.08.08
Nos Rompantes.

Onde a valorosa vida abre a excelsa asa
A rapina do tempo executa e encerra:
Somos exercício.
Ou apenas o lance, entrevisto e súbito
Entre uma respiração e outra.
Como se em estreita eternidade habitássemos
E nela, avançando, já não chegássemos
Ao esperado porto, à cidade das colunas,
À via atapetada, ao largo dos rapazes.
Não chegamos:
pois já não há lugar.
Apenas avançamos, em rompantes,
Como uma barca avança num mar raso
Ou um pássaro avança na neblina.
(Falo de eternidade não como tempo infinito,
Mas como reluzir do presente, faísca do sempre.)
E galgar as pedras do rochedo é lacerar-se.
E cambalear nas escarpas é romper-se.
E rodopiar nos cumes é desafiar o céu
E somar desmedida à desmesura.
É nesse passeio estreito que habitamos,
Orgulhosos como deuses, mas fugazes
Como labaredas, e ávidos, untados os
Membros extremos com a carnadura,
Abertos os pomos, o torso e as costas,
Vamos fúlgidos, como se a uma festa
Fôssemos: e vamos ao nada e sabemos.
E cada um de nós alarga o passo e aspira
O ar adstringente da montanha.
Felizes, como se uma reunião de sátiros,
Fogosa, nos aguardasse ao sopé das coisas,
Como se as pedras, o pó, a orla acetinada
Do horizonte nos reabsorvessem e delas
Saíssemos outros, mais audazes.
Mas nada indica que as pedras, o pó
E orla acetinada do horizonte
(E nada por trás do horizonte arrisca
Dar-se a conhecer por um instante)
Sejam mais do que a pedra, o pó
E a orla arregaçada da distância.
Há uma tormenta; mas não vemos.
À frente, há o vazio; o ignoramos.
(Ou fingimos ou não pensamos,
Esquivos ao que mais nos chama.)
A morte tem uns dedos longos e azulados
E os olhos feitos de uma pedra opaca.
Ainda assim, altivos, transluzentes,
Vamos à caça, ao campo vamos.
E dessa larga plataforma giratória
Pode-se avistar uma amplidão calada.
E nada ali nos diz respeito,
Tudo é incalculável.
Mas em tudo inserimos uma alma
E burlamos a solidão com discursos
E a tudo afixamos um nome,
Certos de que as coisas, nomeadas,
Aprovam e respondem.
Já que a música do mundo nos espanta.
(Ou melhor: o mundo não faz música
E isso é o que nos terrifica.)
enviado por beethoven às 16:44 | 22 comentários
Sunday, 03.08.08
Tanta Música e o Trágico.

Adianta dissertar duzentas páginas sobre o trágico? Adianta entoar um canto de dor e de louvor à vida? Quem, afinal, vai saber do que falo? Quem viveu o que vivi e quem viu o que vi e quem sentiu como eu e quem esteve lá? Na arena, sozinhos entramos, sozinhos saímos. E sozinhos passamos pela arena, altivos e cabisbaixos, alternadamente. Desisti de entoar meu canto. Adianta contar dos meus dias, da minha fraqueza, do meu cansaço, da minha desesperança? Eu sou tão pequeno. Eu sou alguma coisa tão pequena que, mais ou menos dia, vai ser devorada pelo tempo. Frágil, como sou, apenas um invólucro provisório - mas que encontrou Schubert. Com Impromptus de Schubert, a morte é doce. Se for possível pedir, depois da vida, um lugar, um lugar com música. Não precisa haver mais nada, só a música. É que a vida, tão desabilitada, tão irrisória, viva na fugacidade, às vezes me desespero, mas dentro da música há um espaço tão vasto onde o vôo é possível. Liberdade, a música, é o que eu entendo por liberdade. Mas que adianta, se ninguém ouviu como eu e eu sou apenas um grão? Nada, de nada vai adiantar, ninguém ouve o teu lamento, é vã a tua ode, não há mais Pai celestial, não há mais Pai. Adianta falar de dor? Eu sou a aljava e o cerne. Vamos juntos, tu e eu, ao lugar onde a vida, esse feixe, abre a excelsa asa. Se vens comigo, se não vens, já não sei e não espero mais. Apenas vou, tão nu, por um atalho de pedras.
enviado por beethoven às 07:13 | 2 comentários
Saturday, 26.07.08
Experimento Orgânico-Musical-Mineral.
trilha: Beethoven - Grande Fuga para Quarteto de Cordas Opus 133.

















enviado por beethoven às 19:25 | 1 comentário
Thursday, 03.07.08
Londrina: Madrugada.











enviado por beethoven às 00:08 | 2 comentários
Saturday, 28.06.08
Um Exercício.

enviado por beethoven às 04:52 | comente
Sunday, 15.06.08
O Manjar Humano.

enviado por beethoven às 04:40 | comente
Saturday, 07.06.08
O Corpo-Novo.

enviado por beethoven às 05:19 | comente
Friday, 23.05.08
Auto-Retratos com Câmera.



