a maçã em processo

Cien Años de Soledad.



cem anos de solidão.









convenhamos. cem anos de solidão é o livro mais legal do mundo. quem discorda é porque ainda não leu. e o amor nos tempos do cólera é o segundo livro mais legal do mundo, quem discorda não leu também. e gregório de matos? tem coisas chatas, difíceis de ler. outras coisas são pérolas sagradas de escárnio. o bom é que eu gosto de reler. reler on the road depois de cinco anos me deu uma outra sensação, muito diferente da que eu tive na primeira leitura. kerouac continua sendo um dos meus escritores altos. reler gabriel garcía márquez é um prazer brutal. e um dia eu teimei que queria ler e o vento levou , da margareth mitchell. nunca acabei a leitura do catatau. mas às vezes eu o vejo na estante, leio um trecho a esmo e me lembro de uma passagem do filme. e por falar em épicos norte-americanos, me lembrei de a cor púrpura, que revi anteontem. palmas para whoopy goldberg, que está genuína. e revi também segredos e mentiras, que o moraes faz questão de dizer que é ótimo e é ótimo mesmo, moraes. outro livro que eu teimei que queria ler depois de assistir o filme foi o exorcista. e marcou minha adolescência o romance de peter blaty. mas o que eu queria mesmo dizer nesse post é que cem anos de solidão é o máximo. mas e a paixão segundo gh, da clarice lispector? assustador, tenho medo até de tocar na capa toda remendada do exemplar em frangalhos que eu encontrei no sebo. o que não nos impede de lembrar de adélia prado. o que não nos impede de recordar o entusiasmo da leitura de robinson crusoe. o que também não nos impede de dizer que a angelica huston é o máximo em os imorais, de stephen frears. e sabe mais o quê? guimarães rosa. esse sim. é o que existe de mais legal em matéria de literatura brasileira. quem leu sabe. quem não leu não vai saber jamais.





Publicado em 18 de dezembro de 2002 às 17:21 por beethoven

O Boi e o Tempo na Galáxia.

para Isabella Lopes

o boi de molibidênio.




nas cápsulas do boi de alumínio o tempo parece correr ao contrário. dentro dos olhos negros do boi metalúrgico, o tempo é contado em segundos metálicos. dentro da ossada do boi de titânio, no meio do cerne da alma cirúrgica do boi de potássio, os instantes não podem ser levados a sério. nada supera em inteligência esse boi de fosfatos e cálcio. o boi foi projetado para percorrer distâncias hediondas no espaço sideral. ele é a tecnologia que todos esperavam. o boi pode decifrar seus ideogramas secretos. e os seus pensamentos mais inconfessáveis. dentro da omoplata do boi cibernético existem três átomos especiais. o boi é composto de vários módulos. um deles é pura antimatéria. a antimatéria é o próprio combustível do boi em suas viagens. se você não sabe o que é antimatéria, consulte o meu ps, logo abaixo.


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Publicado em 06 de dezembro de 2002 às 12:23 por beethoven

O Alface Fácil.



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alface que roda na salada e que me anima a produzir poesias longas e intrincadas justamente por não ser tema comum de poesia. encontrar na solidão do alface um pedaço da própria solidão e deduzir que na composição de suas folhas deve existir algum componente extremamente simples: na tessitura das células do alface deve existir algum componente extremamente fácil de ser digerido, fácil de ser poetizado, fácil de ser cambiado em palavras.

a discussão sobre o sexo do alface é tão infrutífera como a do sexo dos anjos ou das samambaias. o desafio é o de tentar arrancar do alface algo que claramente pertença a ele: algo totalmente alfácico. isso chega a ser difícil, não sei nem como começar a tentar. me ajudem, vamos instituir nesse momento o concurso poético-tipológico das propriedades exclusivamente alfácicas.

quem se habilita, quem se debruça sobre uma folha de alface à procura de respostas, quem sustenta que o alface é venenoso, quem argumenta que ele é sonífero, quem aguenta ficar dias e dias sem comer uma única folha de alface? orgânico ou hidropônico? crespo ou americano? você é quem vai decidir.



Publicado em 04 de dezembro de 2002 às 02:39 por beethoven

Meu Fim de Semana:



o belo jabuti.







florada, viagem, caminhão, pedaço da estrada de rodagem, sábado, domingo, silêncio, escuridão, cigarro, chá chinês, teoria da literatura, cachorro, sanhaço, chafariz, banho, churrasco, soja, sem computador, sean penn, michelle pfeifer, ônibus, yakult, cachorro de novo, sinusite, passeio, remédio, jardim, pai, geladeira, forno elétrico, Victor Hugo, giz de cera, papel, elefante, jabuti, bicicleta, trópico de capricórnio, água de coco, chuveiro, cérebro, anti-matéria, gregos, romanos, cachorro de novo, pernilongo, lembrança, saudade, fotografia, vontade, sótão, bolo, conhaque e carlos drummond.



ps: na foto, o velho jabuti com o casco colorido, pensa numa boa maneira de enganar o FBI.





Publicado em 25 de novembro de 2002 às 01:21 por beethoven

Há um ano? Esse blog? Como assim?


a maçã no escuro.

PLOP!


neste exato instante o maçã no escuro completa um ano de existência.


esse blog, a maçã no escuro, pra que serve? como é que se conjuga o verbo ser? esse blog estranho que você está lendo pertence a alguém. veja só, esse blog chato que está bem na sua frente, esse blog meio absurdo está ligado à vida de alguém meio absurdo, meio sem saber o que dizer mas dizendo um monte de coisas que, lidas ou não, fazem parte de uma existêcia meio absurda. o fato é que hoje aconteceram duas coisas importantes. primeiro, eu comprei uma bicicleta que há muito tempo eu queria. agora posso me locomover mais facilmente pelas avenidas e parques da cidade. e segundo, a gabi, meio sem saber-sabendo que o dia era hoje, me deu uma pintura rosa shock de uma maçã no escuro. é muito bom ter uma bicicleta e uma pintura assim, ao mesmo tempo. mas estou no meio da tarde. preciso saber o que vai vir agora. se me dão licença, eu vou ver o tempo. a maçã espera sobre o mobiliário. quer um naco?

ps: “a maçã no escuro" é o nome do segundo romance de Clarice Lispector, publicado em 1961. o único dela que tem um homem como personagem central. logo vou fazer um post dizendo mais coisas sobre o livro.




Publicado em 21 de novembro de 2002 às 10:15 por beethoven

Toada de Fim de Semana.



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aonde foste, aonde fui, aonde fomos. fui ao tempo. fui à vida que me laça. quer um naco? de três dias sob o sol, três dias embrenhado, no mormaço, na quissaça, na vacaria. pois minha estada foi fantástica. para um fim de semana com alarde de pássaros, com gado vacinado, com estrebaria dos cavalos, com brete, com carrapato, com barbela, com estrado, com facão, com arretado, com lida de estrelas num céu. e quando a noite chegava emudecíamos. na fazenda tudo o que existe é sonhado: no meio do mato respira-se e orquestra-se aquela outra vida, aquela tácita receita, aquele modo plácido das lagoas, dos pés de limão. ao entardecer, a sinfonia dos sapos. e a coruja, secreta sobre um galho, versava a anunciação de tudo, a estranha ordem geométrica de tudo, o modo como as coisas se ajeitam no campo, as camas, os jantares, o fundo dos rios, as grandes copas recobertas de orvalho. ao amanhecer, a liturgia dos raios. o dia encaixa as aparências e enxágua a espuma densa da noite com a luz. tudo arde. para uma viagem séria rumo às densidades, percorrer a vida, percorrer o tempo e os esquemas que o tempo arma na folhagem. o caldo do estar atento. o caldo pardo que escorre do estar vivo. para um viagem doce em direção aos vales no feriado, tudo o que precisamos é de um cão e de um corpo. o resto se arranja na toada.



ps: a foto é de uma manhã na fazenda e o trecho em itálico é de carlos drummond de andrade.





Publicado em 19 de novembro de 2002 às 01:39 por beethoven

Com a Chuva Dentro da Gente.


com a chuva no inteior da tua máquina.



e chove? mas assim, sem dizer nada, chove? assim sem aviso, sem explicação, chove? assim na rua, na calçada, na paz dos cemitérios, sem demora, chove? sinos da chuva, sinos do tempo. já abri minha janela e já me adaptei ao tempo e o tempo se espalhou nas passarelas, nos umbrais. na rua Souza Naves, um espetáculo delicado. aqui em mim. mas assim? sem conversa, sem blá blá blá, sem papo, sem fritação, sem sacanagem? chove? aqui em ti. na terceira pétala da vigésima flor dos quintais, na terceira margem da chuva aberta, nas fenestras, nos varais. mas como? ouvi dizer que bem assim, sem discussão, sem nem um pio, nem um ai, sem nada! chove? aqui em nós. aqui onde eu me acostumei chamar de corpo, meu abrigo – tão antigo, tão banal. chove nas cercanias da rua Pistóia. nos arredores da rua Cacilda Becker. chove atrás da catedral com vigor. não ouvi dizer que chove assim, de manso, de levinho. perdão. vou me refazer na chuva. perdão: chove em vós, nas catacumbas, nas cisternas, nos portais. sem nada, chuva nua, sem parar. é assim mesmo que eu gosto.


ps: a crônica do Briguet na rádio hoje, sobre o coração do absurdo, é de arrepiar um humano por dentro.




Publicado em 10 de novembro de 2002 às 19:04 por beethoven

Sua Farsante!


seu farsante!



eu gosto de infâmia. eu vim que é pra dizer o que ainda está sendo pensado. vim pra dizer que o aço é um minério fácil, que o laço que nos une foi desmantelado, que a sede é gerada no teu ovário esquerdo e que a fome é a tua ausência mais a minha dor. eu vim alado te dizer que a luta dessas nem-palavras é pura bobagem. que a erupção do Vesúvio é uma farsa, que não existem gambás na Abssínia, que nada ainda foi revelado e que Tudo ainda jaz no leito obscuro de Tudo, irremediavelmente.

ps: eu não vim te dizer porra nenhuma. eu vim dizer que todos os fatos são vagos, que todos os ratos são pardos, que todos os atos são tragos de bourbon e soda. eu vim foder com os lados do contrato, vim revelar-lhes todo o segredo ocultado entre os escombros da bomba de mercúrio cromo.


Publicado em 07 de novembro de 2002 às 15:36 por beethoven

Pseudo-Post de Finados.


a janelinha quer ser sua amiga!



a idéia era fazer um post sério sobre o dia de finados e falar da morte e das peculiaridades do ato de morrer. mas esperei muito. agora o dia de finados já passou e eu vou falar sobre alguma outra coisa. preciso de um bom assunto: a atividade sexual dos lêmures. o problema é que não sei nada sobre lêmures e nem ao menos vi um mísero lêmure durante toda a minha vida. então vou fazer um relatório sobre a frequência das aparições de marmotas gigantes no nordeste da Sibéria. o que seria deveras inviável devido à minha notável ignorância no assunto “marmotas gigantes”. queria falar sobre coisas desprezíveis, coisas tolas. desde como se deve proceder na hora de confessar –Eu não gosto de trufas!, até as sutilezas das estátuas petrificadas de Pompéia. mas hoje estou completamente sem assunto. não consigo decidir entre um memorando de finanças e um estudo dialético das pantufas de Marx. o que fazer? melhor seria se eu escrevesse sobre um assunto fácil, como a velocidade de crescimento das unhas. ou um assunto divertido, um assunto escatológico, um assunto bobo: como fazer para que o seu amigo anão cresça mais 1 milímetro? desisto. não vou conseguir. devo voltar aos meus velhos e caros temas: avestruzes e crustáceos, as relações entre ambos e o modo como eles se inter-relacionam na biosfera. me desculpem. hoje estou completamente idiota.


ps: a foto era para eu usar no post sobre o dia de finados. é uma janelinha de mausoléu do cemitério São Pedro. gosto do contraste preto-amarelo-vermelho. mas agora que o post foi abolido a foto não tem função alguma. a não ser a de dizer: “-oi, eu sou uma janelinha de mausoléu e vim ser legal com vocês !”pode ser?


Publicado em 05 de novembro de 2002 às 17:37 por beethoven

A Máquina do Mundo.



carlos drummond de andrade.





para o centenário do poeta.





E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco

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Publicado em 31 de outubro de 2002 às 16:04 por beethoven

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