a maçã em processo

BEETHOVEN NO OURO VERDE.





Hoje, às 20:30, no Ouro Verde, Abertura Egmont, Op. 84, e Sinfonia Número 8, Op. 93. Orquestra Sinfônica da UEL regida pelo maestro americano Robert Austin. Absolutamente imperdível!

Publicado em 20 de novembro de 2008 às 15:41 por beethoven

A Grécia Arcaica.






Há, para além da Grécia, um porto. Não sei contar as ilhas ou as vezes que estive perdido. Mas há um porto, há uma tarde no arquipélago. Para além da Grécia, olhos que são água. Um herói, um tirano, um corifeu. Há um corpo sobre o qual descansar, uma Música, um gesto. Não sei da dança ou das vestes do coro, não sei das máscaras ou do frêmito. Mas sei do mar, que a Música em ti revolveu – e da espuma. Um grão que é teu – a areia, teus pés, teus cílios semoventes. Há um mover-se dentro da terra, para além da Grécia, as mãos espalmadas sobre o chão. Eu vi quando teus olhos dardejavam, eu percebi, respondi, a Música era a vida ou a seiva que me manteve vivo. Mãos, companheiro, e força, para seguir avante. Estás aqui?

Publicado em 16 de novembro de 2008 às 07:11 por beethoven

O Homem do Tempo.




















Publicado em 11 de novembro de 2008 às 23:33 por beethoven

O Par de Devassa.






Publicado em 09 de novembro de 2008 às 23:42 por beethoven

Teste.



Publicado em 08 de novembro de 2008 às 16:09 por beethoven

Deutsch Stunde mit Rilke.





Ernste Stunde

Wer jetz weint irgendwo in der Welt,
ohne Grund weint in der Welt,
weint über mich.

Wer jetz lacht irgendwo in der Nacht,
ohne Grund lacht in der Nacht,
lacht mich aus.

Wer jetz geht irgendwo in der Welt,
ohne Grund geht in der Welt,
geht zu mir.

Wer jetz stirbt irgendwo in der Welt,
ohne Grund stirbt in der Welt:
sieht mich an.

Hora Séria.

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
sem razão chora no mundo,
chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
sem razão ri na noite,
ri de mim.

Quem agora anda em algum lugar do mundo,
sem razão anda no mundo,
vem para mim.

Quem agora morre em algum lugar do mundo,
sem razão morre no mundo:
olha para mim.

In: RILKE, Rainer Maria. Senhor, é tempo: poemas selecionados. Tradução e organização Karlos Rischibieter. Curitiba: POSIGRAF, 1993.


Wortschatz. (Léxico.)

ernst
Adj 1 sério. 2 grave (situação).

Ernst
Sm (o. Pl) 1 seriedade. 2 gravidade.

irgendwo
Adv em qualquer lugar ou parte.

Grund
Sm, Gründe 1 motivo, razão, causa. 2 solo, chão, terreno. 3 base, fundamento. 4 fundo.

weinen
Vint chorar.

auslachen
Vtr zombar, rir de.

gehen
Vint unreg (sein) 1 ir, andar. 2 ir embora, afastar-se, retirar-se. 3 funcionar. 4 ser possível ou viável. 5 dirigir-se a.

sterben
Vint unreg (sein) morrer, falecer.

ansehen
Vtr unreg 1 olhar, ver, observar, examinar, analisar. 2 perceber. ansehen als (ou für) considerar, tomar por, confundir com.

Publicado em 29 de setembro de 2008 às 10:29 por beethoven

Trois Couleurs: Bleu.





Ganhei de um amigo querido o CD da trilha de Zbigniew Preisner para o filme de Kieslowski. Um presente que me trouxe a maior alegria. Na minha modesta opinião, trata-se da mais bela música já feita para um filme. Música envolvente, poderosa e, sobretudo, humana. Para quem viu o filme, a trilha de Preisner evoca o sofrimento irremediável da personagem Julie, interpretação escandalosamente magistral de Binoche. Talvez uma música dessas seja aquela capaz (arrisquemos) de operar a difícil conexão que é a chave do trágico: entre a inexorabilidade da dor (a dor da perda) e a supremacia de uma alegria (a alegria da Música) que insiste em fazer valer seu emblema, há um estreito espaço. Nesse espaço, construído pelos grandes planos corais e reforçado pela pungência da mesma melodia insistentemente repetida pela orquestra, ergue-se a silhueta humana do herói (da heroína) contra o fundo inapelável que a morte instaura e que a heroína, em sua escalada, deve atravessar. Será esse, talvez, o sentido de uma liberdade que, a despeito da dor, se ergue sobre a ruína. Mas isso é só tentativa vã de avançar sobre aquele limiar do indizível (o limiar da música) além do qual qualquer palavra é convertida num canhestro gaguejar. Então, ouça-se. Faça-se, do silêncio mortal, a música.

Para ouvir de olhos úmidos e de coração atravessado.

1. Song for the Unification of Europe (Patrice's version) 5:17
2. Van Den Budenmayer - Funeral music (winds) 2:05
3. Julie - Glimpses of Burial 0:32
4. Reprise - First appearance 0:34
5. The Battle of Carnival and Lent 0:59
6. Reprise - Julie with Olivier 0:51
7. Ellipsis 1 0:23
8. First flute 0:52
9. Julie - in her new apartment
10. Reprise - Julie on the stairs
11. Second flute 1:18
12. Ellipsis 2 0:23
13. Van Den Budenmayer - Funeral music (organ) 1:59
14. Van Den Budenmayer - Funeral music (full orchestra) 1:49
15. The Battle of Carnival and Lent II 0:44
16. Reprise - flute (closing credits version) 2:21
17. Ellipsis 3 0:25
19. Olivier and Julie - Trial composition 2:01
20. Olivier's theme - finale 1:40
21. Bolero - Trailer for "Red" film 1:11
22. Song for the Unification of Europe (Julie's version) 6:50
23. Closing credits 2:06
24. Reprise - organ 1:15
25. Bolero - "Red" film

Faixas em mp3 compactadas em arquivo.rar

DOWNLOAD AQUI

Publicado em 22 de setembro de 2008 às 20:37 por beethoven

O Vento Livre.


Estou livre. Como o vento é livre e voa entre as campinas matizadas de hera. Estou livre de ti, para sempre, do teu corpo, do teu estar-aí. Vivo livre agora, e conheço um pouco da palavra chamada: felicidade. Porque me libertei de ti, tua carne branca na cova dos leões, voei para outro canto, estou com asas, sou alado e tu és apenas uma sombra. Eu estou no Sol, caminho em direção ao Sol, nas planícies onde viceja a erva, nos rios onde pulula a vida dos peixes. Eu sou a vida. Não estou mais em ti: estou em mim. Vivo em trânsito – danço, corro, apareço – sou aquele que sai, aquele que entra, aquele que ama, aquele que arrasta consigo uma carga da fibrilação da vida. Já não sei concatenar palavras. Estar feliz é mais do que eu conheço. A alegria é um hino que eu entôo, que soa em toda catedral, que ressoa em toda lápide. Sou eu, agora, absolutamente nu. Nos campos, nos iglus, nas britadeiras, nos vales, nas cidades, à beira dos rios, sou eu, aprendi a alegria, aprendi o trágico, renasci da Idade Escura do teu corpo, emergi da Treva. Tratei de iluminar-me. Cuidei de mim. Estou aqui, vivo, com asas, pronto para todo e qualquer arquipélago.

Publicado em 14 de setembro de 2008 às 06:14 por beethoven

Um Fogo Vivo.


Estácio era um homem amigável. Seus pés eram duros como rocha calcária. Ele habitava uma casa de vampiros, lugar de candelabros e de odor de alcaçuz. Na Idade Média, vi Estácio irromper na cripta, os olhos em chamas vivaldinas, dizendo: “- As vidas alemãs são diferentes!”. Nunca pude decifrar o significado desse dito.

Uma vez que Péricles, irmão de Estácio, entra na história, a coisa muda de figura. Péricles é alvo, os pés calçando um par de sandálias mui arcaicas, os olhos doces, pacientes. Nada que lembre o irmão Vespácio. Na primavera, Péricles brinca nas esteiras da tarde (as membranas tão lisas da tarde) como se fosse um pequeno Pã, um pequeno sátiro educado na floresta.

Era o caso, pois Vespasiano, um outro irmão bastardo, fabricava doces. Diz-se: um confeiteiro. E a especialidade de Vespasiano eram os suspiros. Suspiros doces de tão brancos, areados, levíssimos. Na jaula em que Vespasiano reside os suspiros crescem e formam estruturas aneladas. Excesso de fermento, dizem, loucura do confeiteiro, morto por asfixia em suspiros.

E já que estamos em Péricles, não custa narrar o dia em que ele apareceu na horta de gerânios, nu do pescoço pra baixo, cantarolando a antiga canção eslava que sua mãe lhe ensinara. Cru, como um nabo recém-retirado da terra é cru, ele passeava entre as hortaliças enquanto eu, com ouvidos fixos, sorvia o vir-e-ir da canção.

Vespácio era um pônei, revelemos enfim. Cordilheira abaixo, corria com seus cascos de queratina, as crinas em flor, voejantes. O equador é uma linha tão fina. E no Estreito de Bósforo as rochas são de um verde-azulado que até me dói a vista. Errante, Vespácio vaga pelas estradas de sal, entra nos templos, faz oferendas aos deuses.

Para finalmente chegarmos a Tâmara, a irmã de todos. Eu amo Tâmara e a voz de Tâmara. Ela é jardineira. Seu forte são as begônias. Tâmara despreza leguminosas, pois sabe que nada é tão obsceno quanto uma abóbora cortada em fatias. Dentro do peito de Tâmara, vejo fractais. Há uma música tão próxima. Na vagina delicada de Tâmara, um espasmo vai e volta, vai e volta, como um sopro.

Ao lado de Tâmara, existe Daniel. Não posso falar de Daniel, pois não é permitido. Sei que ele é uma sombra, um nome, uma pergunta. E uma dor tão funda. Para ele, escrevi uma poesia. Daniel tem pernas, braços e cabeça – é o que normalmente se chama um “ser humano”. Os seres humanos como Daniel andam por aí, estão sempre por aí. Mas ninguém pode tocá-los, pois são feitos de uma matéria ardente que fulmina qualquer um que deles se aproxime. Ele é um fogo.

Cheguei ao fim da narrativa. Estou exausto. Paro por aqui, pois as palavras me fogem. Abençoada seja Tâmara, a hortifrutigranjeira. Abençoado seja Daniel, seus pés, seu sexo. Abençoado seja Péricles, com seus dotes de marujo. Abençoado seja também Vespasiano, o homem que virou suco. E abençoados sejam os tomates, pois sem eles jamais conseguiríamos fazer molho bolonhesa.

Publicado em 11 de setembro de 2008 às 00:07 por beethoven

Uma Falange de Espinhos.






Há espinhos dentro do meu peito.
São longos e pontiagudos artefatos.
Estão dispostos por toda a extensão do meu peito,
Mas são muitos no canal estreito
Que divide um flanco e outro.

Digo: no centro do peito, entre um mamilo e outro
Há uma concentração de espinhos finos.
São perspicazes, travessos, insolentes –
São feitos de aço e tintilam quando perturbados.

E não são imóveis: mas se aprofundam e corrompem
A matéria frágil do meu peito
A cada vez que eu me lembro de ti e do teu hálito.

Eles laceram a matéria carnosa do meu peito
(meu coração valvulado, meus átrios)
A cada vez que eu reavivo em mim
A lembrança do teu corpo pequeno e compacto,
A pressão do teus lábios sobre os meus,
O passeio lento da tua língua sobre a minha língua.

No interior do centro do meu peito há espinhos.
Uma legião, digo, de espinhos ajuntados.
Formam, sobre a carne do meu peito, uma coroa.

É uma dor redonda e substanciosa e constante
A dor causada por essa falange de espinhos.

É uma dor que eu aceito e que me pertence:
Já que essa dor sou eu, inteiro e vivo e macerado.

Publicado em 04 de setembro de 2008 às 01:25 por beethoven

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